Mudanças
Em um ano, 15% das vagas de cobrador foram extintas em Pelotas
Segundo o Consórcio, 35% dos horários do transporte coletivo são cobertos por ônibus sem estes profissionais
Foto: Jô Folha - DP - Sem cobradores, público deve fazer bilhetagem eletrônica ou pagar ao motorista
São 34 anos de profissão e o único fator que ainda estressa o motorista de transporte coletivo Paulo Renato Lima, 64, é o trânsito de Pelotas. O acúmulo de funções por conduzir um ônibus sem cobrador parece não interferir na rotina do profissional, que diz administrar com precisão o controle do carro, o retrovisor para garantir se todos os passageiros desceram com segurança, o manuseio com o acesso para cadeirantes e o cálculo rápido para fornecer o troco quando alguém aparece com uma nota de R$ 50. O motorista brinca que uma das faltas que sente dos cobradores é quando quer comentar sobre algum motorista barbeiro, mas não tem o colega ao lado para desabafar.
Pois Lima é um dos motoristas que na terça-feira ficou na escala dos ônibus que circularam sem cobradores. Com pouco mais de um ano de vigência da Lei Municipal 4.047, que determina o fim da função no transporte pelotense até 2027, a transição pode ser sentida no bolso dos consumidores, mesmo sem perceber. É que, com a extinção de 15% das vagas, a redução de custos teria possibilitado a manutenção da tarifa sem reajuste.
Conforme o Consórcio de Transporte Coletivo de Pelotas (CTCP), as demissões dos cobradores ocorreram por meio de acordos entre empresa e funcionários, além de pedidos de demissão. O próximo passo é debater a situação com o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário sobre o acordo firmado quanto à dispensa dos aposentados (que seguem trabalhando), os quais teriam ganho estabilidade por mais de um ano.
Ainda conforme determina a normativa, há a chance de migrar para outra função. Pelo menos 15 cobradores participaram da qualificação e hoje já atuam como condutores, além da abertura de uma nova turma para capacitação. “Desde a aprovação da lei, já se fechou de 25 a 30 postos de trabalho, mas conforme a situação dos aposentados deve aumentar para 30% de vagas eliminadas”, explica o diretor do CTCP, Enoc Guimarães. “Desde a aprovação da lei, todos os cobradores tiveram estabilidade garantida por quatro anos”, garante o titular da Secretaria Municipal de Trânsito e Transporte, Flávio Al Alam.
Rotina
Para muitos dos passageiros ouvidos pela reportagem, a ausência do cobrador não interfere na rotina do transporte e na forma de pagar pelo serviço. Mas também há quem discorde. O técnico em som John Lennon Dias Nunes, 33, lembra do aviso logo na entrada do coletivo: não fale com o motorista para não tirar sua atenção. “Agora ele abre a porta de embarque e desembarque, tem que lidar com o troco, prestar atenção pelo retrovisor se está tudo em ordem, cumprir o horário da planilha e o principal, ser um excelente motorista por ser ele, naquele momento, responsável pelas várias pessoas”, argumenta.
O motorista Lima concorda em partes. “Para o acesso com os cadeirantes, não levo dois minutos com a porta. O problema é o trânsito da cidade.” Sua queixa maior é ter um espaço exclusivo para circular - os corredores - e esbarrar diariamente com os condutores quebrando as regras. “Principalmente motorista de aplicativo, que além de circularem, param na via na hora do embarque e desembarque dos seus clientes.”
Pelo levantamento da SMTT, em 2021 foram 829 autos de infração de trânsito (AIT) e, em 2022, 566 a motoristas flagrados trafegando pelos corredores. Ainda conforme Al Alam, o uso do corredor de ônibus por veículo não autorizado prejudica, porém atualmente não caracteriza um obstáculo que prejudique de maneira contundente a operação do coletivo.
“O tempo de viagem em si não mudou muito, uma vez que atualmente a utilização do cartão para pagamento está se tornando o meio mais utilizado, agilizando o serviço”, afirma o secretário. Sobre o não cumprimento dos horários, para Al Alam, não há relação direta com retirada de cobrador, e sim com horário de pico e vias congestionadas. “O cronograma de partidas é cumprido com muito rigor conforme monitoramento eletrônico da frota.”
Bilhetagem
Nesse período de transição, a disponibilidade de diferentes formas de pagamento, principalmente de cartão, 20% ainda preferem pagar em dinheiro (R$ 5 a passagem). “Mas, pelos métodos, acredito que gradativamente irá sumir. O que chama a atenção é que o Cartão Cidadão, cujo valor da passagem é de R$ 3,50, representa muito pouco, o que nos surpreende, pois não chega a 20%”, observa o diretor. O carro-chefe é o vale transporte (R$ 4,50), que corresponde a 50% da forma de pagamento pelo transporte coletivo. O restante, 10%, é complementado pelo cartão de débito ou crédito, agora o Pix (R$ 4,50) e o cartão do estudante (R$ 2,25).
Operacionalidade
Ainda conforme o titular da SMTT, todas as linhas já operam em algum momento sem cobrador, sempre com prioridade para horários de menor movimento assim como linhas de menor utilização. As informações da STT dão conta de que cerca de 35% dos horários andam sem cobradores.
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